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Śramaṇas: Ascetas da Contra-Cultura Védica.

  • Foto do escritor: INatha
    INatha
  • 27 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Abertura

Entre os séculos VIII e III a.C., a Índia testemunhou um movimento de ruptura cultural, filosófica e espiritual que questionou a hegemonia dos brāhmaṇas (ब्राह्मण brāhmaṇa, tradução: sacerdotes védicos) e os fundamentos rituais do veda. Esses movimentos foram conhecidos sob o nome de Śramaṇa (श्रमण śramaṇa, tradução: “aquele que se esforça, aquele que pratica austeridades”).


O termo indica a figura do renunciante, do errante que abandona a ordem social estabelecida para dedicar-se a uma vida de disciplina, ascetismo, busca do conhecimento e liberação.


Enquanto o ritual do soma (सोम soma, tradução: bebida sacrificial divinizada) se elitizava dentro da classe sacerdotal, os śramaṇas inauguravam um caminho alternativo: em vez do sacrifício externo, voltavam-se ao sacrifício interior. Em vez de acumulação ritual e social, buscavam desapego, renúncia e libertação.


1. O Contexto da Ruptura

No período védico tardio, aproximadamente entre os séculos IX e VII a.C., o ritualismo bramânico atingia sua complexidade máxima. Os brāhmaṇas monopolizavam o acesso ao sagrado por meio de liturgias elaboradas, como os śrauta yajñas (sacrifícios públicos), reforçando hierarquias sociais rigidamente estabelecidas pela ideia de varṇa (casta).


Nesse cenário, emergiu uma contra-corrente: indivíduos e grupos que rejeitavam a mediação ritual e optavam pela experiência direta. É nesse contexto que surge o ideal do pravrajyā (व्रज्या pravrajyā, tradução: “partida, renúncia, abandono do lar”), que se tornaria central para o budismo, o jainismo e outras tradições śramaṇicas.


2. O Ideal do Śramaṇa

A palavra śrama significa “esforço, labor, fadiga” e carrega a noção de empenho austero, trabalho espiritual e disciplina física e mental. O śramaṇa é aquele que se consagra à vida errante, praticando tapas (तपस् tapas, tradução: calor, ascese, austeridade) com o objetivo de transcender o ciclo de nascimento e morte (saṃsāra).


Diferente dos brāhmaṇas, cuja autoridade vinha de textos revelados (śruti) e rituais, os śramaṇas se legitimavam pela experiência pessoal, pelo domínio de si e pela prática interior.


3. As Principais Correntes Śramaṇicas

O universo śramaṇico foi vasto, plural e dinâmico. Entre as principais correntes destacam-se:


  • Jainismo (Jaina-dharma जैनधर्म): fundado por Mahāvīra (século VI a.C.), enfatizava o princípio da ahiṃsā (não-violência radical), a prática de austeridades e o karma como substância real que aprisiona a alma.

  • Budismo (Bauddha-dharma बौद्धधर्म): fundado por Siddhārtha Gautama (o Buda), defendia o Caminho Óctuplo (āryāṣṭāṅgamārga) e a libertação do sofrimento através da cessação do desejo e da ignorância.

  • Ājīvikas (आजीविक): fundados por Makkhali Gosāla, defendiam uma doutrina de determinismo absoluto (niyati), segundo a qual tudo está predeterminado e a ascese é vivida como aceitação da ordem cósmica.

  • Lokāyata / Cārvāka (लोकायत / चार्वाक): escola materialista que negava a autoridade dos Vedas, rejeitava a ideia de vida após a morte e sustentava uma filosofia empirista, sensualista e naturalista.


Cada uma dessas correntes, apesar das diferenças, compartilha o mesmo espírito śramaṇico: contestação da ortodoxia bramânica e centralidade da experiência individual.


4. Filosofia e Prática

Os śramaṇas foram inovadores não apenas em termos religiosos, mas também filosóficos e sociais:


  • Questionaram a supremacia do nascimento (jāti) sobre a virtude e a prática, abrindo espaço para uma ética universal.

  • Introduziram conceitos fundamentais como karma (ação e suas consequências), saṃsāra (ciclo de renascimentos) e mokṣa/nirvāṇa (liberação).

  • Criaram modelos monásticos (saṅgha) que se tornaram referências institucionais para toda a história espiritual da Índia.

  • Fizeram da meditação (dhyāna) e do autoexame práticas centrais, deslocando a religião da exterioridade ritual para a interioridade da consciência.


5. O Legado Śramaṇico

O impacto do movimento śramaṇico foi profundo e duradouro. Ele redefiniu a espiritualidade indiana em três níveis:


  1. No campo religioso: o budismo e o jainismo floresceram como sistemas autônomos, competindo com o bramanismo e moldando a religiosidade pan-indiana.

  2. No campo filosófico: os debates entre śramaṇas e brāhmaṇas originaram parte significativa da filosofia clássica indiana, tanto ortodoxa (āstika) quanto heterodoxa (nāstika).

  3. No campo social: a possibilidade de romper com as castas e com o papel familiar abriu novas perspectivas para indivíduos em busca de libertação, criando um ethos alternativo de vida.


Conclusão

Os śramaṇas representam uma das maiores revoluções espirituais da história da Índia. Sua escolha pela errância, austeridade e liberdade interior questionou radicalmente a ordem ritual e social estabelecida pelos brāhmaṇas.


Do ponto de vista histórico, deram origem a sistemas religiosos que atravessaram milênios; do ponto de vista filosófico, instituíram debates que seguem vivos até hoje; do ponto de vista existencial, deixaram um modelo de radicalidade espiritual que ainda inspira buscadores contemporâneos.


Assim, compreender os śramaṇas é compreender não apenas a contestação de um período, mas a emergência de uma tradição inteira de espiritualidade crítica e libertária.


Bibliografia


  • Bronkhorst, Johannes. Greater Magadha: Studies in the Culture of Early India. Brill, 2007.

  • Basham, A.L. History and Doctrines of the Ajivikas. Routledge, 1951.

  • Dundas, Paul. The Jains. Routledge, 1992.

  • Gombrich, Richard. Theravāda Buddhism: A Social History from Ancient Benares to Modern Colombo. Routledge, 1988.

  • Olivelle, Patrick. The Āśrama System: The History and Hermeneutics of a Religious Institution. Oxford University Press, 1993.

  • Thapar, Romila. Early India: From the Origins to AD 1300. University of California Press, 2002.

 
 
 

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