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As Três Camadas da Consciência e as Três Camadas dos Purvakramas (Parte 01): Do Conhecido ao Desconhecido.

  • Foto do escritor: INatha
    INatha
  • 22 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Introdução

A cartografia da consciência nas tradições indianas antigas é marcada por uma progressão de camadas ou densidades ontológicas, que correspondem não apenas a estados psicológicos, mas a níveis de realidade (tattvas).


A tradição védica, as especulações upaniṣádicas, o pensamento tântrico e as metodologias do yoga convergem na compreensão de que a consciência humana não é linear, mas transita por estratos progressivos — do mais denso ao mais sutil, do manifesto ao imanifesto, do movimento (gati) ao som (śabda) e finalmente ao silêncio (mauna).


O percurso pode ser descrito como a passagem por três campos existenciais:


  1. O campo do conhecido (jñāta-kṣetra),

  2. O campo do intuído (anumita-kṣetra),

  3. O campo do desconhecido (ajñāta-kṣetra).


Essa estrutura, presente tanto na especulação védica (śruti) quanto nas sistematizações tântricas, reflete a relação entre o visível e o invisível, entre a experiência sensível e a transcendência absoluta.


1. O Campo do Conhecido — Movimento

O primeiro nível, jñāta-kṣetra, corresponde ao conhecido. É o domínio do movimento (gati, गति), que se expressa no corpo físico (sthūla śarīra), na energia vital (prāṇa, प्राण), nas emoções e na mente discursiva (manas).


Nos Vedas, o movimento é celebrado como a pulsação cósmica que sustenta a vida. O Ṛgveda (X.90, Puruṣa Sūkta) descreve o cosmos como o corpo vivo do Ser primordial (Puruṣa), cujos membros se expandem em ritmos de manifestação. O movimento, portanto, não é apenas mecânico, mas expressão de um princípio vital.


Ṛgveda X.90.2पुरुष एवेदं सर्वं यद्भूतं यच्च भव्यम्।उतामृतत्वस्येशानो यदन्नेनातिरोहति॥puruṣa evedaṁ sarvaṁ yadbhūtaṁ yac ca bhavyam |utāmṛtatvasyeśāno yad annenātirohati ||

“Esse Puruṣa é tudo aquilo que foi e será; Senhor da imortalidade, que cresce inclusive pelo alimento.”


Aqui, o corpo, o alimento e o movimento vital são a base do conhecido.


No campo do yoga, essa dimensão corresponde ao trabalho com os quatro primeiros chakras — mūlādhāra, svādhiṣṭhāna, maṇipūra e anāhata — nos quais a consciência ancora-se na sobrevivência, na energia criativa, na potência da ação e na racionalização da realidade.


O Tantra nātha reforça essa etapa como ādhāra, fundação indispensável. Como afirma o Haṭha Yoga Pradīpikā (I.15):


शरीरे सिद्ध्यत्यसाध्यं न किञ्चिदस्ति भूमौ।śarīre siddhyatyasādhyaṁ na kiñcid asti bhūmau

“Quando o corpo é aperfeiçoado, nada permanece impossível sobre a terra.”


O movimento, portanto, é a primeira linguagem da consciência.


2. O Campo do Intuído — Som

No segundo nível, anumita-kṣetra, a consciência se abre ao intuído, isto é, ao que não é evidente, mas pressentido. Sua linguagem é o som (śabda, शब्द).


A tradição védica reconhece o som como princípio criador. O Ṛgveda (X.125) glorifica Vāk (a Palavra) como força cósmica que sustenta deuses e homens. Já nas Upaniṣads, o som primordial é identificado com oṁ (ॐ), síntese de todo o cosmos.


Chāndogya Upaniṣad I.1.1ओमित्येतदक्षरमिदं सर्वं तस्योपव्याख्यानं भूतं भवद्भविष्यदिति सर्वमोङ्कार एव।om ity etad akṣaram idaṁ sarvaṁ tasyopavyākhyānaṁ bhūtaṁ bhavad bhaviṣyad iti sarvam oṅkāra eva

“Este som Oṁ é todo este universo. O que foi, o que é e o que será — tudo é o Oṁ.”


No Tantra, o som interior (anāhata nāda, अनाहत नाद) é visto como ponte entre o manifestado e o imanifesto. O Śiva Saṁhitā (II.1) declara:


नादोऽस्मिन्संसरे मूलंnādo ’smin saṁsāre mūlaṁ

“O nāda é a raiz deste universo.”


O campo do intuído corresponde à ativação dos chakras anāhata (coração) e viśuddha (garganta), onde a consciência começa a perceber que por trás do movimento há um ritmo oculto, uma ressonância que conecta o humano ao cósmico.


Assim, o som é a via pela qual o conhecido abre-se ao invisível.


3. O Campo do Desconhecido — Silêncio

O terceiro nível, ajñāta-kṣetra, é o mergulho no desconhecido absoluto, no que está além de qualquer intuição ou conceito. Sua linguagem é o silêncio (mauna, मौन).


O silêncio aqui não é mera ausência de som, mas plenitude informe.


As Upaniṣads insistem que o Absoluto não pode ser apreendido por palavras, mas apenas pela negação de toda referência (neti, neti — “não isto, não aquilo”).


Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad II.3.6नेति नेति। न ह्येतस्मादिति नेत्यन्यत्परमस्ति।neti neti | na hy etasmād iti nety anyat param asti

“Não isto, não aquilo. Pois além desse ‘não, não’ não há nada superior.”


No Tantra, esse silêncio é identificado com o estado de śūnya (śūnyatā, शून्यता) — não como carência, mas como espaço pleno. O Vijñāna Bhairava Tantra (śloka 49) ensina:


यत्र यत्र मनो याति तत्स्थानं भावयेत्परम्।yatra yatra mano yāti tat sthānaṁ bhāvayet param

“Onde quer que a mente vá, veja ali o estado supremo.”


No yoga, este nível corresponde aos centros ājñā, sahasrāra e unmanī onde a consciência se dissolve no ilimitado, no “não-nascido” (ajāta, अजत).


Síntese

A travessia das três camadas mostra a pedagogia iniciática do yoga e do tantra:


  1. Movimento (gati) — domínio do conhecido, sustentado pelo corpo, energia, emoção e mente.

  2. Som (śabda) — domínio do intuído, sustentado pela vibração que conecta forma e não-forma.

  3. Silêncio (mauna) — domínio do desconhecido, sustentado pela dissolução das referências na vacuidade plena (śūnyatā).


Essa tripla estrutura é um mapa do despertar da consciência, que vai da fixação no visível até a abertura ao Absoluto, do campo do conhecido ao mistério do silêncio primordial.


Bibliografia Selecionada


  • Ṛgveda Saṁhitā, ed. S. R. Sharma. Delhi: Motilal Banarsidass, 1988.

  • Chāndogya Upaniṣad, in The Principal Upaniṣads, trad. S. Radhakrishnan. London: Allen & Unwin, 1953.

  • Bṛhadāraṇyaka Upaniṣad, in The Thirteen Principal Upaniṣads, trad. Robert Hume. Oxford: Oxford University Press, 1962.

  • Śiva Saṁhitā, trad. James Mallinson. New York: YogaVidya.com, 2007.

  • Haṭha Yoga Pradīpikā, trad. Brian Dana Akers. New York: YogaVidya.com, 2002.

  • Vijñāna Bhairava Tantra, trad. Jaideva Singh. Delhi: Motilal Banarsidass, 1991.

  • Feuerstein, Georg. The Yoga Tradition: Its History, Literature, Philosophy and Practice. Prescott: Hohm Press, 2001.

  • Eliade, Mircea. Yoga: Immortality and Freedom. Princeton: Princeton University Press, 1969.

  • Padoux, André. Vac: The Concept of the Word in Selected Hindu Tantras. Albany: SUNY Press, 1990.

  • White, David Gordon. The Alchemical Body: Siddha Traditions in Medieval India. Chicago: University of Chicago Press, 1996.

 
 
 

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